Nicolau Sevcenko
A Revolta da Vacina reconstitui um dos episódios menos compreendidos porém mais significativos da Primeira República. Em 1904, uma onda violenta de insatisfação popular paralisa o Rio de Janeiro durante a campanha de vacinação contra varíola. Nicolau Sevcenko, renomado estudioso do período, amplia a significação dos acontecimentos e revela tensões históricas profundas. De um lado, o bloco dos donos do poder, da especulação imobiliária e de uma ciência pouco sensível ao impacto desumano de sua aplicação autoritária. De outro, grupos organizados de cidadãos e uma população anônima que vinha sendo sistematicamente despejada do centro da cidade pela reforma urbana do prefeito Pereira Passos.
Como é recorrente em nossa história, o saldo foi negativo para o campo popular. Mortos. Líderes revoltosos duramente punidos. A repressão aproveitou para desterrar grupos de excluídos para a Amazônia. Ao rememorar os destroços sociais da Revolta da Vacina, o autor ilumina episódios semelhantes da vida brasileira e faz uma denúncia de seu imenso custo social e humano.
A Revolta da vacina: Mentes insanas em corpos rebeldes.
SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da vacina: Mentes insanas em corpos rebeldes. Scipione, São Paulo, SP, 2001.
Isabela Magalhães
Juliana Pinho
Kallyna Helena Marcolino
Luiz Felipe Batista Genú
Nathalia Bezerra Soares de Melo
Rafael de Andrade
A Revolta da Vacina é um tema que chama a atenção devido a suas particularidades, como a ampla participação da população e a violência dos embates entre revoltosos e as forças de repressão, ocorridos nas ruas da capital federal da época. Entender a verdadeira motivação de um movimento tão intenso e que conseguiu abranger uma gama tão variada de pessoas destaca-se como algo fundamental para a real compreensão não apenas sobre a revolta, mas também a respeito dos primeiros anos da republica brasileira. Com o objetivo de chegar às causas mais profundas da rebelião e, além disso, analisar a relação entre essas causas e as características da sociedade brasileira da época, o professor Nicolau Sevcenko, em 1983, dedicou o livro “A Revolta da Vacina – Mentes insanas em corpos rebeldes” a investigação do tema.
No primeiro capitulo, cujo título é “O motim popular: ímpeto”, o autor faz uma descrição detalhada do cotidiano da revolta que se passou em 1904 no Rio de Janeiro, então capital federal do Brasil. Segundo o autor, esta aconteceu em virtude da crescente insatisfação popular com a política de reformas do presidente Rodrigues Alves, que chegou ao ápice durante a campanha sanitária de vacinação contra a varíola.
Os setores de oposição política da época reagiram ruidosamente à campanha da vacinação. Eram os principais opositores os florianistas, jovens oficiais formados nas escolas técnicas de preparação de cadetes, que preconizavam uma reorganização da sociedade inspirada, entre outros, nas teorias de Augusto Comte; os jacobinos, civis, oriundos de setores urbanos prejudicados pelo governo e aliados ideologicamente ao primeiro grupo, e por fim, mais interessados na desestruturação do governo republicano como um todo, os monarquistas. Esta oposição heterogênea, que já vinha articulando um golpe contra o governo, viu na reação popular uma oportunidade para legitimar suas ações e começou intensa campanha contra a vacina, tanto entre o povo, com a ajuda de alguns setores da imprensa, quanto no âmbito político, onde usaram de toda a sua influência para retardar a promulgação de uma possível lei de obrigatoriedade da vacina.
A medida era de interesse do governo, que defendia que a vacinação era de extrema importância para a saúde publica do Rio de Janeiro, na época o maior foco de varíola no Brasil; além disso, dizia que tais medidas sanitárias já haviam sido implantadas com sucesso em países europeus. A oposição argumentava que a eficácia dos soros era contestável, assim como a competência e a moralidade dos enfermeiros, fiscais e policiais responsáveis por sua aplicação. Criticavam, acima de tudo, o caráter obrigatório da lei, a qual chamavam de tirana. Mesmo elementos da elite social que não se identificavam como opositores, como Rui Barbosa, mostravam insegurança quanto à eficácia da vacina. A massiva campanha contra a vacina fez-se sentir: em agosto de 1904, apenas 6 mil pessoas procuraram voluntariamente a vacinação, contra 23 mil pessoas no mês anterior.
Apesar da controvérsia, a lei foi votada no dia 31 de outubro e sua regulamentação foi delegada ao Departamento de Saúde Pública, que era dirigido por Oswaldo Cruz. O regulamento esboçado por este, publicado no jornal A Notícia no dia 9 de novembro de 1904, apresentava termos extremante rígidos e impunha diversas complicações para os que não se vacinassem, como multas pesadas e suspensão de certos direitos civis. Nicolau Sevcenko nota a falta de preocupação, da parte dos dirigentes, com a preparação psicológica da população para a vacinação.
As agitações começaram no dia seguinte à publicação, com resposta quase imediata da Brigada Policial.
No dia 11, A Liga Contra a Vacina Obrigatória, encabeçada por Lauro Sodré e com o apoio do Centro das Classes Operárias, incitou e liderou as manifestações populares. A Liga, um instrumento da oposição, pretendia usar da revolta para abalar o governo e concretizar seu próprio projeto político, mas não teve sucesso e eventualmente perdeu o controle dos manifestantes; o autor argumenta que “para os amotinados não interessava selecionar lideres ou plataformas, mas sim, lutar por um mínimo de respeito à sua condição de seres humanos. A Liga então diminui sua importância no seio do movimento, que tende a tomar um curso dispersivo e espontâneo” (SEVCENKO, 2001, p. 20).
Nos três dias seguintes a agressividade dos populares cresceu, com a vandalização de propriedade pública e a disposição de barricadas e trincheiras nas ruas. As autoridades perderam o controle da região central e de bairros periféricos, como a Gamboa e a Saúde. Os materiais resultantes da reforma urbana da cidade serviam de munição para os insurretos.
A reação do governo foi brutal: lançou mão de todos os recursos de contenção disponíveis, convocando, além da Polícia, o Exército, a Guarda Nacional e a Marinha, que chegou a bombardear bairros e regiões costeiras. Só através dessa impressionante mobilização de forças repressivas é que o governo conseguiu, afinal, responder à insurreição.
Afinal, no dia 16 foi revogada a obrigatoriedade da vacina. Com os revoltosos finalmente subjugados e retirada a causa imediata da revolta, o movimento chega ao fim. A cidade após a revolta era um caos de destroços e ruínas, com marcas de combate por todas as partes, além de um numero incalculável de mortos e feridos.
No segundo capítulo, intitulado “Conjunturas sombrias: angústia”, o autor retoma algumas medidas dos governos anteriores para explicar em que situação Rodrigues Alves foi recebido na cidade do Rio de Janeiro. Identificado como continuador do projeto político impopular do governo de Campos Sales, o novo presidente teve uma recepção fria, uma vez que, segundo o autor, a população carioca votara maciçamente no candidato da oposição, Quintino Bocaiúva. (SEVCENKO, 2001, p. 37)
Enquanto o presidente paulista Prudente de Morais, eleito em 1894, se encarregou de pacificar as turbulências revolucionárias herdadas dos governos militares, seu sucessor, Campos Sales, incumbiu-se de recuperar a economia do país. O objetivo era apresentar para grandes potências uma imagem de governo sólido e estável, e assim atrair investimentos. Campos Sales renegociou a dívida externa com sucesso às custas de um processo de deflação e de arrocho da economia interna. O ministro da Fazenda da época, Joaquim Duarte Murtinho, estabeleceu medidas econômicas com conseqüências sociais drásticas: demissões de funcionários e operários, suspensão de serviços e pagamentos, maior carga tributária. Essas determinações atingiram a população mais pobre, que já sofria com o desemprego e o alto custo de subsistência, e provocaram diversos motins populares. O setor beneficiado pelas novas medidas econômicas foi o da cafeicultura paulista, consolidando a hegemonia deste grupo sobre os demais setores nacionais.
Rodrigues Alves considerava, contudo, que não era bastante pacificar as rebeliões regionais e estabilizar a economia para conseguir recursos estrangeiros para o Brasil: precisava superar ainda outros obstáculos, como ampliar o porto do Rio de Janeiro, incompatível com as atividades econômicas da época, e revitalizar a própria estrutura da cidade cujas ruas estreitas e tortuosas, tipicamente coloniais, dificultavam o transporte de mercadorias. Tornou-se imprescindível para o projeto governamental o melhoramento do porto e a remodelação urbana do Rio de Janeiro, projeto que, de acordo com Sevcenko, foi drástico e de terríveis conseqüências.
O presidente iniciou a execução de seu projeto indicando Lauro Müller para a reforma do porto e delegando-lhe poderes e recursos ilimitados. Pereira Passos foi nomeado prefeito do Distrito Federal e encarregado das obras de embelezamento e salubridade. Através da lei de 29 de dezembro de 1902, arbitrária e anticonstitucional segundo a oposição, o prefeito recebeu poderes absolutos. O autor utiliza a citação de Afonso Arinos de Melo Franco, um jurista e biógrafo da administração de Rodrigues Alves, para demonstrar o alcance desses poderes: “Começava por adiar por seis meses as eleições para a Câmara Municipal, o que vinha deixar ao prefeito, desde logo, as mãos livres de qualquer algema oposicionista [...]. o artigo 23 completava a disposição, pois, segundo ele, quando se tratasse de demolição, despejo, interdição e outras medidas, haveria apenas um auto afixado no local, que previa penalidades contra as desobediências. Daí vieram os numerosos casos de demolição, com famílias recalcitrantes ainda dentro dos prédios.” (SEVCENKO, 2001, p. 46). Rui Barbosa foi um dos poucos que alertou a elite política sobre as prováveis conseqüências dessas atitudes demasiadamente enérgicas, que provavelmente seriam extremamente desagradáveis para a população.
Havia ainda um terceiro ponto: os surtos de doenças como febre amarela e varíola. Sevcenko alega que a cidade era conhecida internacionalmente como “o túmulo dos estrangeiros”, de forma que muitos visitantes não desembarcavam por precaução (SEVCENKO, 2001, p. 40). As campanhas para a erradicação das endemias tomaram o mesmo curso autoritário das reformas urbanas, com Oswaldo Cruz assumindo a coordenação do projeto sanitário da capital e recebendo plenos poderes para cumpri-lo. A oposição chegou a chamar suas campanhas de “ditadura sanitária”, referindo-se à lei que permitia a invasão, fiscalização e demolição de casas ao mando do agente sanitário, e que estabelecia foro próprio para evitar qualquer tipo de resistência da parte da população. Esta lei da obrigatoriedade fortalecia ainda mais a força dos agentes: a população estava sob o capricho dos funcionários públicos. Sevcenko sintetiza essa situação da seguinte forma: “Se alguém escapara dos furores demolitórios de Lauro Müller e do prefeito Passos, não teria mais como escapulir aos poderes inquisitoriais de Oswaldo Cruz” (SEVCENKO, 2001, p. 53).
Para o autor, era iminente uma reação da parte da população, cada vez mais indignada com a opressão generalizada. É a extensão dessa opressão arbitrária que é o tema do terceiro capítulo, “O processo de segregação: agonia”.
No final do século XIX e inicio do século XX, a população crescia no Rio de Janeiro. Boa parte desse aumento se devia ao grande influxo de pessoas vindas das fazendas arruinadas após a abolição, à procura de trabalho e moradia.
Este aumento populacional acelerou bruscamente o processo de metropolização da capital. Segundo o autor, a conseqüência direta desse crescimento foi a rápida degradação da cidade, com diversas moradias centrais sendo transformadas em cortiços de aluguel barato e higiene precária, onde se amontoavam famílias inteiras. A reforma financeira de Campos Sales agravou a situação ao ameaçar a economia de iniciativas privadas, como pequenos negócios e fábricas, em favor da produção de café. O resultado foi que na capital, onde a população estava muito mais envolvida com o primeiro tipo de economia, os empregos diminuíram e os preços dispararam. A crise econômica interna atingiu em cheio a população mais pobre da cidade, e o resultado foi uma situação social cada vez mais tensa, com a escalada da atividade criminosa.
O governo e suas instituições eram fracos diante dos motins, e sua inabilidade em lidar com o crescente descontentamento da população foi um dos elementos-chave no desencadear da insurreição. A oposição, por sua vez, compreendeu a força desse sentimento de revolta e foi talvez a grande responsável por transpô-lo para o campo das ações, através da organização de comitês e manifestações públicas de protesto. Contudo, também subestimou o povo ao pensar que conseguiria manobrá-lo na direção que desejasse, e quando a revolta popular tornou-se mais intensa, os líderes da oposição deram lugar a lideres populares, como o famoso Prata Preta.
Sevcenko argumenta também que as reformas do governo de Rodrigues Alves agravaram ainda mais a situação ao atingir os populares de diversas formas e em diferentes âmbitos, servindo, muitas vezes, a mais de um propósito. O alargamento das ruas, por exemplo, além de exigir a demolição de centenas de moradias, tornava a construção e manutenção das barricadas mais difíceis, ao mesmo tempo em que permitia maior mobilidade e liberdade de estratégia às forças de repressão; talvez por isso, propõe o autor, a Revolta da Vacina tenha sido o “último motim clássico no Rio de Janeiro” (SEVCENKO, 2001, p. 58). Sevcenko também conclui que a desapropriação forçada das moradias das camadas mais pobres da cidade, quer fossem motivadas pelas reformas urbanas ou pelas ações dos agentes sanitários, fazia parte de um projeto elitista de limpeza social e urbana, chamada pela imprensa conservadora de “Regeneração”. A demolição dos imóveis fez com que a população deslocada migrasse para a periferia da cidade, onde foram construídos novos cortiços. Porém, como o preço da moradia aumentasse cada vez mais, o destino final dos que não podiam pagar era quase que invariavelmente o assentamento em locais impróprios para a habitação, como morros e mangues, ou a participação em atividades ilegais. Por isso, segundo o autor, o levante da Vacina não apresentava um plano político popular: era um grito de revolta de uma população cada vez mais oprimida pela burguesia dominante que controlava o governo.
O último capítulo do livro, intitulado “A repressão administrativa: terror” é uma análise do tipo de repressão desencadeado pela Revolta da Vacina e a sua repercussão. O autor se baseia em depoimentos da época para descobrir uma repressão brutal e intransigente, dirigida contra pessoas que, em sua maioria, não possuíam emprego, moradia ou documentos. A punição dos acusados não se baseou numa investigação de sua participação real no motim; foi, na verdade, encarada pela polícia como uma oportunidade para remover da cidade reformada as pessoas “indesejadas” e potencialmente turbulentas.
Visando legitimar a radical repressão, os relatórios das autoridades tratam sempre os revoltosos como vagabundos e desordeiros, inimigos crônicos da ordem. Em contraposição ao julgamento das autoridades, é apresentado por Sevcenko um depoimento de Lima Barreto onde ele afirma que a composição dos revoltosos era a mais variada possível, tratando-se de pessoas com diferentes profissões e de diferentes posições sociais. (SEVCENKO, 2001, p. 67)
O autor estabelece uma relação entre a discriminação dos corpos - corpos sãos, corpos doentes, corpos rebeldes – e a nova disposição geográfica da cidade, segundo a qual a massa popular, considerada de uma maneira geral como doente, foi empurrada para os morros e subúrbios, onde também foi instalado o parque fabril da cidade. O local onde outrora estas pessoas viveram, o centro, fora reformado e tornara-se a área de lazer da burguesia, onde ela reproduzia os padrões sociais europeus. Foi este, argumenta o autor, o momento da implantação do estilo de vida burguês, no qual o “mundo do trabalho” está separado do “mundo do ócio”. Segundo Sevcenko, o sucesso posterior da campanha de vacinação e do processo de “Regeneração” na implantação desta nova ordem social urbana é encarado pelos representantes da elite como um processo pelo qual se redime o “atraso” do país, tendo como modelo as sociedades européias. Cria-se a partir daí uma noção de divisão da sociedade entre “doentes” e “sãos”, onde caberia aos últimos dirigirem o país apesar dos primeiros. É essa a base para a difusão da idéia, até hoje popular, da apatia do povo brasileiro em relação ao trabalho e à política, que foi usada para justificar, entre outros, a necessidade de imigrantes “adequados” para a nova sociedade. Sevcenko ainda argumenta que o tipo de repressão utilizado na Revolta da Vacina representa um fator de continuidade entre a antiga sociedade senhorial e a nova republicana: “Nesse momento de transição brusca e traumática da sociedade senhorial para a burguesa, muitos dos elementos da primeira foram preservados e assimilados pela segunda: sobretudo no que diz respeito à disciplina social” (SEVCENKO, 2001, p. 80) .
O autor conclui, por fim, que a Revolta da Vacina foi resultado de um processo complexo de aburguesamento e cosmopolitização da sociedade brasileira, que discriminava e submetia os grupos destituídos ao controle social através da opressão: “Sua reação não foi contra a vacina, mas contra a história. Uma história em que o papel que lhes reservaram pareceu-lhes intolerável e que eles lutaram para mudar” (SEVCENKO, 2001, p. 83).
Ainda que reitere algumas das visões tradicionais sobre alguns aspectos da revolta, como a ausência de um plano político popular durante a insurreição, o livro de Sevcenko difere de outros estudos sobre o mesmo tema em vários pontos.
O autor alega, na introdução, que um de seus objetivos é incitar uma maior reflexão sobre o custo social e humano das transformações desencadeadas pela nova ordem político-econômica em ascensão no país. Para enxergar os eventos de 1904 sob um ângulo mais próximo do popular, ele dá ênfase a fontes menosprezadas em outros estudos que constam em sua bibliografia. São fontes como artigos da imprensa e testemunhos de contemporâneos, em especial os do intelectual Lima Barreto, cuja utilização como fonte histórica o autor já havia defendido em seu livro “Literatura como missão” (SEVCENKO, 1999, p. 68).
Sem dúvida, estas fontes permitem uma nova perspectiva sobre a natureza e o desenrolar do levante popular, abordando pontos que não podem ser compreendidos através da análise meramente quantitativa. A contagem de mortos e feridos após a revolta, por exemplo, não é suficiente para compreender o que foi a repressão pós-levante que, segundo as fontes do autor, se estendeu durante dias; nem permite enxergar um quadro do caos urbano que era o Rio de Janeiro antes, durante e após a revolta.
Por outro lado, estas fontes tendem por vezes a pecar pela parcialidade e dramaticidade. Os jornalistas da época certamente seguiam sua própria agenda ao pintar certas notícias com cores mais ou menos fortes ou ao escolher o que publicar e o que omitir. Os testemunhos pessoais são ainda mais suscetíveis à subjetividade dos seus autores: Lima Barreto, por exemplo, tinha imenso desdém pelo sistema republicano que havia, entre outros, desempregado seu pai (SEVCENKO, 1999, p. 125). O resultado é a presença, no texto, de uma crítica fortemente anti-burguesa que muitas vezes parece exagerada, e que somada ao tom emotivo adotado por Sevcenko (reconhecido e escusado pelo mesmo na introdução do livro), torna o leitor mais cauteloso quanto às informações adquiridas.
O livro consegue, contudo, fazer-nos questionar nossa própria visão sobre o que aconteceu no Rio de Janeiro em 1904. Ao focar não as permanências políticas, mas as rupturas sociais trazidas pelo novo governo, Sevcenko consegue construir uma atmosfera na qual vemos, em apenas 15 anos, um processo de transformação social firme, projetado e liderado pela elite, que atropela as classes mais pobres. Não é tão importante, neste caso, se o leitor concorda com seu ponto de vista ou não, mas sim que este é pertinente o suficiente para gerar diversos questionamentos sobre o que conhecemos tradicionalmente como revolta, mas que nos é apresentado, no livro, em termos mais próximos de uma guerra civil.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da vacina: Mentes insanas em corpos rebeldes. Scipione, São Paulo, SP, 2001.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. Brasiliense, São Paulo, SP, 1999.
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A América que não está na mídia - Mário Augusto Jakobskind
A América que não está na mídia, de autoria do jornalista Mário Augusto Jakobskind, analisa a cobertura da mídia conservadora sobre a região. Jakobskind, que já publicou outros livros sobre o continente latino-americano, entre os quais América Latina – História de Dominação e Libertação, da Editora Papirus, tem se dedicado nos últimos 20 anos à cobertura da América Latina e com ênfase na questão midiática, assinala que o objetivo deste mais recente trabalho é “discutir a mídia hegemônica e a cobertura sobre o nosso continente que está em processo de transformação”.
Segundo o jornalista e escritor Flávio Tavares, autor do prefácio do ‘‘A América que não está na mídia’’, destaca inicialmente o resgate, por Mário Augusto, de histórias ocultas que não podem ser esquecidas:
“Ao longo de anos e anos, o Brasil esteve de costas para a América Latina. Desconhecíamos os países vizinhos de língua espanhola, mesmo tendo os mesmos problemas, idênticos anseios e quase o mesmo idioma. Sabíamos que tínhamos até o mesmo inimigo, e que ele estava ao norte, poderoso e mandão, mas – entre nós mesmos - seguíamos distantes e Mário Augusto Jakobskind, com este livro, volta a nos integrar ao continente”.
Em outro trecho do prefácio, Flávio Tavares acrescenta que “o relato inicial do livro leva a indagar sobre as origens do terror espalhado pela direita na América Latina. Em minhas andanças de exilado político, eu vivia na Argentina em 1976, quando um golpe militar implantou o terrorismo de Estado. Morava em Buenos Aires, era correspondente dos jornais Excelsior, do México, e de O Estado de S. Paulo, mas só fui saber da “Noite dos Lápis” muito tempo depois. O horror se escondia nas profundezas dos segredos e do medo da população.
São essas histórias ocultas que Mário Augusto conta agora, interpretando o passado recente não apenas para conhecê-lo, mas – mais do que tudo – para nos lembrar daquilo que não pode repetir-se jamais.
A apresentação de “A América que não está na mídia” é de João Pedro Stédile, líder do MST e da Via Campesina. Para ele, “Mário Augusto faz um retrato crítico da América Latina e os leitores terão uma ótima oportunidade de atualizar suas informações sobre o nosso continente e, ao mesmo tempo, estarão vacinados contra as manipulações que habitualmente a grande imprensa costuma fazer de fatos políticos do continente, e que o autor chama de goebelinas”.
O escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor do antológico “As veias abertas da América Latina”, faz um comentário sobre o livro de Mário Augusto, que é uma obra-prima:
¿Medios de comunicación o miedos de comunicación? ¿Libertad de expresión o libertad de presión?
A orelha do livro é do saudoso jornalista Fausto Wolf.
O livro, da Editora Altadena, tem 198 páginas, e poderá ser adquirido por R$ 30 pelo email: jakobskind@terra.com.br
Segundo o jornalista e escritor Flávio Tavares, autor do prefácio do ‘‘A América que não está na mídia’’, destaca inicialmente o resgate, por Mário Augusto, de histórias ocultas que não podem ser esquecidas:
“Ao longo de anos e anos, o Brasil esteve de costas para a América Latina. Desconhecíamos os países vizinhos de língua espanhola, mesmo tendo os mesmos problemas, idênticos anseios e quase o mesmo idioma. Sabíamos que tínhamos até o mesmo inimigo, e que ele estava ao norte, poderoso e mandão, mas – entre nós mesmos - seguíamos distantes e Mário Augusto Jakobskind, com este livro, volta a nos integrar ao continente”.
Em outro trecho do prefácio, Flávio Tavares acrescenta que “o relato inicial do livro leva a indagar sobre as origens do terror espalhado pela direita na América Latina. Em minhas andanças de exilado político, eu vivia na Argentina em 1976, quando um golpe militar implantou o terrorismo de Estado. Morava em Buenos Aires, era correspondente dos jornais Excelsior, do México, e de O Estado de S. Paulo, mas só fui saber da “Noite dos Lápis” muito tempo depois. O horror se escondia nas profundezas dos segredos e do medo da população.
São essas histórias ocultas que Mário Augusto conta agora, interpretando o passado recente não apenas para conhecê-lo, mas – mais do que tudo – para nos lembrar daquilo que não pode repetir-se jamais.
A apresentação de “A América que não está na mídia” é de João Pedro Stédile, líder do MST e da Via Campesina. Para ele, “Mário Augusto faz um retrato crítico da América Latina e os leitores terão uma ótima oportunidade de atualizar suas informações sobre o nosso continente e, ao mesmo tempo, estarão vacinados contra as manipulações que habitualmente a grande imprensa costuma fazer de fatos políticos do continente, e que o autor chama de goebelinas”.
O escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor do antológico “As veias abertas da América Latina”, faz um comentário sobre o livro de Mário Augusto, que é uma obra-prima:
¿Medios de comunicación o miedos de comunicación? ¿Libertad de expresión o libertad de presión?
A orelha do livro é do saudoso jornalista Fausto Wolf.
O livro, da Editora Altadena, tem 198 páginas, e poderá ser adquirido por R$ 30 pelo email: jakobskind@terra.com.br
Livro novo sobre Ruy Mauro Marini
Ensaios dedicados a Ruy Mauro Marini
Autor(a): Emir Sader e Theotonio dos Santos (coord.); Carlos Eduardo Martins e Adrián Sotelo Valencia (orgs.)Prefácio: Paulo M. d'Avila FilhoPáginas: 3922009Preço: R$ 48,00
Considerado um pilar da construção do pensamento marxista não só no Brasil mas em toda a América Latina, paradoxalmente, o legado de Ruy Mauro Marini é pouco conhecido no País. A América Latina e os desafios da globalização: ensaios dedicados a Ruy Mauro Marini reúne dezesseis ensaios de intelectuais consagrados, dedicados ao legado do pensador brasileiro, produzidos nos dez anos de sua morte.
Para Theotonio dos Santos, identificado ao lado de Marini e Vânia Bambirra como a corrente da "teoria da dependência", a vida de Marini como militante clandestino, exilado e revolucionário, "só podia ser uma incômoda presença em nosso país". No momento em que a emergência de crises agudas coloca em cheque os preceitos neoliberais, a homenagem a Marini cumpre um duplo objetivo - ao mesmo tempo em que busca corrigir a pouca difusão de sua obra no Brasil, retoma a avaliação sobre a produção teórica latino-americana desde os anos 1920, dialogando com os desafios que se apresentam no horizonte.
Dividido em quatro partes, os ensaios de América Latina e os desafios da globalização retomam o aspecto político e militante das obras de Marini, os debates sobre as tendências do sistema e da economia mundial, a articulação entre a acumulação de capital e o trabalho, e o pensamento social latino-americano. Ao mesmo tempo em que recuperam a análise crítica sobre a produção teórica na região, os autores retomam, sob a conjuntura contemporânea, os conceitos e temas desenvolvidos por Marini.
Para ele, as transformações socialistas não foram derrotadas com a emergência do neoliberalismo. Ao contrário, os projetos revolucionários devem emergir renovados para combater a intensificação contínua da superexploração e da exclusão interna. A avaliação de Marini é um contraponto poderoso a incredulidade disseminada junto aos parâmetros capitalistas. Suas obras dialogam com uma geração para a qual o socialismo se apresentava como uma tarefa imediata e emergia como uma transformação necessária e realizável.
Os textos resgatam a reflexão sobre a conjuntura latino-americana, seus aspectos de construção social específica, e sua inserção num contexto amplo do desenvolvimento histórico da humanidade. Marini busca suas raízes em Karl Marx, Lenin, Rosa Luxembrugo e Leon Trostski para repensar a produção social da América Latina, num tempo em que a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) postulava uma linha desenvolvimentista para a região.
Suas contribuições não foram poucas - a teoria da dependência, os conceitos de sub-imperialismo, superexploração do trabalho e inúmeras reflexões sobre modelos participativos de decisão são alguns dos legados deixados por Marini, que estão presentes no debate sobre os desafios sociais de nosso tempo.Trecho da apresentação de Carlos Eduardo Martins e Adrián Sotelo Valencia
A restrição à obra de Ruy Mauro Marini no Brasil e seu paradoxal desconhecimento por parte dos brasileiros têm três raízes. A primeira, o golpe militar de 1964, que o levou ao exílio no Chile e no México, antes que desenvolvesse grande parte de sua obra. O golpe apartou o país do enfoque latino-americanista que marcou as ciências sociais da região nos anos 1960-1970.
A segunda, a ofensiva da Fundação Ford voltada para a construção de uma comunidade acadêmica liberal capaz de gerenciar o capitalismo brasileiro em marcos democráticos, uma vez terminada a ditadura. A terceira se refere à ofensiva neoliberal empreendida na região ao longo dos anos 1990, estimulada pelo consenso de Washington e pela crise das universidades públicas, o que sujeitou a intelectualidade a pressões externas. Entretanto, a crise de legitimidade do neoliberalismo potencializa a abertura de novos espaços.
Ensaios e autores
Parte I - O Homem e a Obra: Política e Revolução
Um Pensador Revolucionário
Theotônio dos Santos
Ruy Mauro, Intelectual Revolucionário
Emir Sader
Meu Querido Ruy
Aña Esther CeceñaParte II - Globalização e Dependência
Mudando a Geopolítica do Sistema-Mundo 1945-2025
Immanuel Wallerstein
Apresentando o Tio Sam sem Roupas
Andre Gunder Frank
Neoimperialismo, Dependência e Novas Periferias na Economía Mundial
Adrián Sotelo Valencia
A Economia Mundial e América Latina no Início do Século XXI
Orlando Caputo
Parte III - Capital, Trabalho e Economia Mundial
Dependência e Superexploração
Jaime Osório
A Superexploração e a Economia Política da Dependência
Carlos Eduardo Martins
A Abertura Revisitada: A Crítica Teórica e Empírica do Livre-Comércio e a Atualidade do Pensamento de Ruy Mauro Marini sobre a Mais-Valia Absoluta
Pierre Salama
Dependência e Superexploração do Trabalho no Capitalismo Periférico
Marcelo Carcanholo
Parte IV - Pensamento Latino-Americano e Mundo Contemporâneo
Vigência e Debate em Torno à Teoria da Dependência
Marco Gandásegui
A Intelectualidade Crítica Brasileira no México e o Pensamento Político de Ruy Mauro Marini
Lucio Oliver
Ser ou Não Ser Subdesenvolvido
Oswaldo Munteal
A Revolução Cubana e a Teoría da Dependencia: Ruy Mauro Marini como Fundador
Francisco Lopez Segrera
Teorias da Dependencia e Estruturalistas na Era da Globalização Neoliberal.
Cristóbal Kay
Autor(a): Emir Sader e Theotonio dos Santos (coord.); Carlos Eduardo Martins e Adrián Sotelo Valencia (orgs.)Prefácio: Paulo M. d'Avila FilhoPáginas: 3922009Preço: R$ 48,00
Considerado um pilar da construção do pensamento marxista não só no Brasil mas em toda a América Latina, paradoxalmente, o legado de Ruy Mauro Marini é pouco conhecido no País. A América Latina e os desafios da globalização: ensaios dedicados a Ruy Mauro Marini reúne dezesseis ensaios de intelectuais consagrados, dedicados ao legado do pensador brasileiro, produzidos nos dez anos de sua morte.
Para Theotonio dos Santos, identificado ao lado de Marini e Vânia Bambirra como a corrente da "teoria da dependência", a vida de Marini como militante clandestino, exilado e revolucionário, "só podia ser uma incômoda presença em nosso país". No momento em que a emergência de crises agudas coloca em cheque os preceitos neoliberais, a homenagem a Marini cumpre um duplo objetivo - ao mesmo tempo em que busca corrigir a pouca difusão de sua obra no Brasil, retoma a avaliação sobre a produção teórica latino-americana desde os anos 1920, dialogando com os desafios que se apresentam no horizonte.
Dividido em quatro partes, os ensaios de América Latina e os desafios da globalização retomam o aspecto político e militante das obras de Marini, os debates sobre as tendências do sistema e da economia mundial, a articulação entre a acumulação de capital e o trabalho, e o pensamento social latino-americano. Ao mesmo tempo em que recuperam a análise crítica sobre a produção teórica na região, os autores retomam, sob a conjuntura contemporânea, os conceitos e temas desenvolvidos por Marini.
Para ele, as transformações socialistas não foram derrotadas com a emergência do neoliberalismo. Ao contrário, os projetos revolucionários devem emergir renovados para combater a intensificação contínua da superexploração e da exclusão interna. A avaliação de Marini é um contraponto poderoso a incredulidade disseminada junto aos parâmetros capitalistas. Suas obras dialogam com uma geração para a qual o socialismo se apresentava como uma tarefa imediata e emergia como uma transformação necessária e realizável.
Os textos resgatam a reflexão sobre a conjuntura latino-americana, seus aspectos de construção social específica, e sua inserção num contexto amplo do desenvolvimento histórico da humanidade. Marini busca suas raízes em Karl Marx, Lenin, Rosa Luxembrugo e Leon Trostski para repensar a produção social da América Latina, num tempo em que a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) postulava uma linha desenvolvimentista para a região.
Suas contribuições não foram poucas - a teoria da dependência, os conceitos de sub-imperialismo, superexploração do trabalho e inúmeras reflexões sobre modelos participativos de decisão são alguns dos legados deixados por Marini, que estão presentes no debate sobre os desafios sociais de nosso tempo.Trecho da apresentação de Carlos Eduardo Martins e Adrián Sotelo Valencia
A restrição à obra de Ruy Mauro Marini no Brasil e seu paradoxal desconhecimento por parte dos brasileiros têm três raízes. A primeira, o golpe militar de 1964, que o levou ao exílio no Chile e no México, antes que desenvolvesse grande parte de sua obra. O golpe apartou o país do enfoque latino-americanista que marcou as ciências sociais da região nos anos 1960-1970.
A segunda, a ofensiva da Fundação Ford voltada para a construção de uma comunidade acadêmica liberal capaz de gerenciar o capitalismo brasileiro em marcos democráticos, uma vez terminada a ditadura. A terceira se refere à ofensiva neoliberal empreendida na região ao longo dos anos 1990, estimulada pelo consenso de Washington e pela crise das universidades públicas, o que sujeitou a intelectualidade a pressões externas. Entretanto, a crise de legitimidade do neoliberalismo potencializa a abertura de novos espaços.
Ensaios e autores
Parte I - O Homem e a Obra: Política e Revolução
Um Pensador Revolucionário
Theotônio dos Santos
Ruy Mauro, Intelectual Revolucionário
Emir Sader
Meu Querido Ruy
Aña Esther CeceñaParte II - Globalização e Dependência
Mudando a Geopolítica do Sistema-Mundo 1945-2025
Immanuel Wallerstein
Apresentando o Tio Sam sem Roupas
Andre Gunder Frank
Neoimperialismo, Dependência e Novas Periferias na Economía Mundial
Adrián Sotelo Valencia
A Economia Mundial e América Latina no Início do Século XXI
Orlando Caputo
Parte III - Capital, Trabalho e Economia Mundial
Dependência e Superexploração
Jaime Osório
A Superexploração e a Economia Política da Dependência
Carlos Eduardo Martins
A Abertura Revisitada: A Crítica Teórica e Empírica do Livre-Comércio e a Atualidade do Pensamento de Ruy Mauro Marini sobre a Mais-Valia Absoluta
Pierre Salama
Dependência e Superexploração do Trabalho no Capitalismo Periférico
Marcelo Carcanholo
Parte IV - Pensamento Latino-Americano e Mundo Contemporâneo
Vigência e Debate em Torno à Teoria da Dependência
Marco Gandásegui
A Intelectualidade Crítica Brasileira no México e o Pensamento Político de Ruy Mauro Marini
Lucio Oliver
Ser ou Não Ser Subdesenvolvido
Oswaldo Munteal
A Revolução Cubana e a Teoría da Dependencia: Ruy Mauro Marini como Fundador
Francisco Lopez Segrera
Teorias da Dependencia e Estruturalistas na Era da Globalização Neoliberal.
Cristóbal Kay
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